Acompanhamos

Loading...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O monstro e os impuros


Banda U2 homenageia, no show em SP, crianças mortas em Realengo.
Aguardei propositalmente o tempo passar e a "poeira baixar" um pouco para escrever sobre o terrível crime ocorrido recentemente numa escola do Rio de Janeiro em que um indivíduo matou doze crianças. Dada a velocidade com que se sucedem as mais terríveis notícias, pode até ser que muitos já deixaram de se preocupar com o fato, até porque é deveras angustiante mesmo lembrá-lo.
É necessário, no entanto, destacar que há crimes que nos obrigam a pensar sobre nossa sociedade. Há outros que nos obrigam a pensar sobre nossa humanidade. O crime ocorrido em Realengo se enquadra nessa segunda categoria. O primeiro impulso de muitos dos que se pronunciaram publicamente sobre o crime foi chamar o homicida de "monstro". Outros o chamaram de louco. Nada mais equivocado. Como que nos valendo de uma espécie de mecanismo de defesa da espécie, relutamos em aceitar a humanidade de terríveis figuras como essa. Michel Foucault, no livro "Os Anormais", destaca que toda época tem seus "monstros": figuras eleitas pelo imaginário a fim de, contrariamente às evidências, sustentar uma condição não humana e, assim, nos absolver a todos.   
A aceitação da humanidade de sujeitos com condutas deploráveis, ainda que nos incomode como espécie, nos aproxima de uma medida de verdade sobre nossa existência e sobre os desafios da convivência social. Rejeitado pelos iguais, supostamente vítima de bullying, palavra da moda, diga-se, o próprio assassino fez questão de se "destacar" da humanidade em sua "carta testamento" e em vídeo. Em sua mente perversa, seríamos todos, salvo ele, impuros. Os únicos merecedores de misericórdia e acolhimento seriam os "animais abandonados" com os quais o homicida acaba por se identificar, como observou a psicanalista Anna Verônica Mautner em preciso e precioso artigo publicado da Folha de S. Paulo no qual a carta é analisada. 
Dito isso, é certo que o homicida e a sociedade, ao se excluirem mutuamente da condição humana (monstro X impuros), acabam sendo cúmplices em uma mentira conveniente para ambos. Mas a pior desonestidade é a desonestidade consigo mesmo, o que nos obriga a reconhecer que o mal existe, habita dentro de nós e nos obriga a um combate perpétuo, uma luta interna constante. O assassino foi abandonado pela mãe, mas foi acolhido por outra mulher que dele se fez mãe. Fraco e covarde, abdicou do bom combate, se abraçou na confortável tábua de salvação da autocomiseração e se fez algoz do mundo e de si. Não encontrará a glória, claro. O inferno da infâmia é o que lhe resta.