sábado, 10 de outubro de 2009

Felicidade na Psicanálise

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Menos é mais

Tudo bem. Aqui vai mais uma de cinema. Finalmente assisti ao "Santiago", documentário do João Moreira Salles. O primeiro e o último dele. Sim, porque trata-se de uma material que o autor guardara por 12 anos até finalizar. Muito interessante ver o processo criativo do documentarista, a angústia da produção, o abandono da obra e, finalmente, sua retomada já na maturidade. Joãozinho, com diz o tal Santiago, ganha pontos por sua humildade. O documentário traduz uma dura autocrítica (tem hífem? Vai assim...) que acaba por engrandecer o criador. Afinal, a obra existe apesar da pequenez do diretor que (quase) perdera um grande personagem na arrogância de tentar dirigí-lo.
Documentário não é ficção certo? É a realidade na tela? Hum... Sei não... Como diz o caboclo pachorrento e indolente. O que na vida é real, o que é ensaiado, o que é atuação... Um pouquinho de divã e quem sabe nos tornemos aptos a enchergar um eu canastrão. Acho que essa autocrítica (hífem?) nos engrandece também.
Um documentário pode ser mais ficcional que uma obra assumidamente de ficção. Por isso, talvez, tenho cá com meus botões desenvolvido intimamente uma admiração pelas almas simples e infantis, silenciosas e contemplativas ou mesmo pelas inquietas almas quase irracionais em detrimento dos senhores e senhoras da razão que, aos quatro ventos, propagandeiam suas crenças e feitos, seus códigos morais e imorais, suas conquistas e seus mundos ideais. Ao despojar-se da razão como fetiche, Joãozinho, outrora pobre menino rico, produz um ótimo filme, inclassificável, meio caótico, mas vivo e, putz!, deixa o espectador com um ponta de raiva do diretor e outra de pena do velhinho que viveu entre aristocratas vivos e mortos, talvez mais imaginários que reais.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

15 de setembro


K., ainda são macios os pés que te carregarão mundo afora. São finos e ralos os cabelos que servirão a tua vaidade tão feminina. É alva e limpa a pele que te liga ao mundo. K., tu gritas sons que ainda não são palavras, mas a dor que teu choro denuncia já é dor verdadeira. Teu sorriso, K., já é chave, encanto, sorvete de cereja e oi. Teus olhinhos são duas janelinhas onde o sol nasce e se põe tranqüilo, mas, K., já tens também alguns dos vários olhares que te farão sedutora e, àqueles que deles se encantarem, seres iluminados de sorte. Como eu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Once upon a time in the west


É como se dos clássicos do western Sergio Leone tivesse decidido fazer um pastiche. E o pastiche supera o original. Trata-se do "western spaguetti". Comecei com Hollywood, passei pelos franceses, alemães e suecos para bem admirar a arte e o capricho de Sergio Leone em "Era uma vez no oeste" e "Três homens em conflito". Este, aliás, rivaliza com "Noivo neurótico, noiva nervosa" pela pior tradução de título para o português. "Três homens em conflito". Imagine! Trata-se de "Il buono, il brutto, il cativo" ou, em inglês, "The good, the bad and the ugly". Um dia corrigirão isso. Fato é que Leone é um mestre do cinema. Um esteta. A sequência de abertura de "Era uma vez no oeste", com a apresentação dos créditos iniciais, dura 10 minutos. Só ela já é melhor do que muito filme e quem quiser parar por aí já faz um grande progresso. Mas deveria continuar nesta aventura em que "todos sabem que vão morrer", menos a bela Cláudia Cardinale. Aliás, a trilha sonora de Ênnio Morricone merece especial atenção. Tudo o que foi feito nos EUA em termos de western não foi páreo para Morricone em termos de trilha sonora. Quem nunca ouviu a trilha de "Três homens..."? Basta pensar num lugar ermo com tufos de mato rolando ao vento e ouvirá.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um deus para uma vida fácil

Premido pela inatacável necessidade de um deus que suportasse a insustentável leveza de sua existência, escolheu criar seu próprio deus. Seu deus seria "Pássaro Bongô". "Igreja Universal de Pássaro Bongô", "Assembléia do divino Pássaro Bongô", "Igreja de Nosso Pássaro Bongô Misericordioso". Palhaço: um deus à sua imagem e semelhança. Fruto de sua fértil imaginação (ou teria ouvido falar dele em um programa infantil?) e a quem atribuiria propriedades miraculosas. A cura para a doença que ele não tinha. Eficácia garantida. Inventado o deus e criada a igreja, faltariam apenas os fiéis. Pássaro Bongô deles teria piedade, acolheria a todos e seria implacável com os inimigos. Não! Seria misericordioso, pois os inimigos eram vítimas ou instrumentos do... E viu que faltava um inimigo que, maldoso e temível, ousasse afrontar Pássaro Bongô. Não falta mais: a decaída Vaca Jazz.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Do heroísmo


Foi o último dos heróis que ele tentou adotar. Era belo, inteligente, forte e lutava por uma causa nobre: a igualdade entre os homens. Pela via da luta armada, pela via revolucionária, desejava implantar no continente o socialismo real. Sendo os homens essencialmente iguais, não haveria lógica para privilégios herdados. Os detentores do capital deveriam tudo dividir com seus iguais através da intervenção do estado, que depois seria abolido. Inobstante a honestidade intelectual da idéia, tal era acalentada por mentes doentias de radicalismo e esbarrava nas ambiguidades humanas. Ora sublime ora vil, nossa alma padece de crônica ilogicidade, incompatível com o rigor metodológico das filosofias. E o herói revolucionário morreu também naquele que um dia tentou adotá-lo como modelo de homem. Agora resta a ele o papel de provedor e arrimo de um grupo de pessoas que se convencionou chamar família.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Da graça


O Estranho Caso de Mister Wong

"Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia…
Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!"

(Mario Quintana, em Sapato Florido)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Da guerra


"Em circunstâncias de paz, o homem guerreiro se lança contra si mesmo". (Nietzsche).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Do silêncio


[TAKE 1. Homem fala para a câmera. Ar blasé. Jornal na mão. Ao fundo, som da TV. Cenário: sala da casa. Ambiente claro.]

Eu falo. Ela não não me escuta. Não entende minhas razões, sabe? Explico: digo a ela o que ela deve fazer. Assim, assado. Ela não me escuta. Pode? Olha só: outro dia cheguei em casa. Ela não estava. Estava na casa dos tios. E eu? Não tem lógica...

[CORTA]

[TAKE 2. Mulher fala para câmera. Exaltada. Fuma. Ao fundo, telefone tocando. Cenário: cozinha da casa. Pouca luz.]

Eu falo, explico. Ele não me ouve. Simplesmente não ouve. Liga a TV, o celular. Liga para alguém. Alguém liga... Olha aqui, ó... Falo... Eu vou embora, sacou? E vou. E volto. E aí é ele quem fala. Ele sabe disso, daquilo e argumenta, justifica e argumenta e... A lógica... Que p. de lógica é essa?

[CORTA]

[TAKE 3. Criança de 5 anos numa praça. Balança-se no brinquedo solitária. Sorri. Faz sol.]



terça-feira, 4 de agosto de 2009

Do tempo


A ansiedade é o corolário do mau uso do tempo. O tempo não está a nosso favor, é verdade, mas podemos usá-lo bem. Ou melhor: devemos. Um dia, uma noite, um mês após outro e os problemas se resolvem. Possivelmente nós é que os resolvemos com a ajuda do tempo. "O tempo é o senhor da razão", disse um político canastrão acho que papagaiando Proust. Não creio. Antes, o contrário: a razão nos ilude senhores do tempo e do espaço enquanto, na verdade, somos deles servos. E um servo pode negociar com seu senhor: se há virtude em comandar, também há em obedecer. Sem o ser não há o tempo. Com Sartre: "a existência precede a essência".
A sapiência, por sua vez, não é dádiva do tempo. Um velho não será necessariamente mais sábio por ter a sorte e/ou a persistência de seguir vivendo. Ao contrário, muitas vezes a longevidade é viabilizada pelo véu da ignorância. A sapiência talvez seja, sim, uma dádiva do tempo quando associada à paciência de se cultuar permanentemente a curiosidade típica das crianças. E o velho será sábio ao não deixar morrer a criança que um dia foi.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Da autoridade


A autoridade e seu reconhecimento diz respeito diretamente ao reconhecimento da lei, fato que, por seu turno, relaciona-se com a figura paterna e sua inserção na linguagem. A forja da autoridade é um movimento de mão dupla que se estrutura a partir de sua imposição em consonância com seu reconhecimento. Autoridade não legitimada pode ser identificada com a figura puramente ditatorial, que domina apenas pela violência, tal como no mito do "pai da horda primitiva" destacado por Freud em "Totem e Tabu".
Autoridade não é nem pode ser identificada com uma pessoa, mas sim em instituições. Pessoas são investidas de autoridade quando reconhecidas a partir de um ritual no seio de uma instituição codificada, normalmente com substrato jurídico, por uma sociedade. Por não ser essencialmente, mas apenas acidentalmente, pessoal, dessa autoridade se deve esperar mais a sabedoria do que 0 carisma e suas decisões hão de ser igualmente impessoais.
Todas as leis dependem, para sua eficácia, do reconhecimento de sua legitimidade. Diz-se, no Brasil, de leis que "não pegam", as quais, talvez, nada mais sejam, do que leis sem apoio na autoridade, não reconhecidas pela ausência de eco social. A fraqueza institucional no Brasil normalmente reduz a autoridade a figuras carismáticas ou autoritárias, respeitadas por temor reverencial, subserviência voluntária ou por seu corolário, o messianismo. Nada disso está em consonância com a democracia moderna, antes caracteriza o déficit democrático de que padece o País.
Tenho a pessoal impressão de que os índices astronômicos de aprovação do Presidente Lula em confronto com o total descrédito do legislativo em todos os níveis da federação é a prova de uma força personalista e nefasta que se agiganta perante as instituições da vida civil, ou seja, se assim é em face da casa de leis, o é em face de todas as demais instituições.

domingo, 19 de julho de 2009

Kafka: uma fábula amoral


Publicado na Folha de S. Paulo de 19/07/2009:


Anotações breves sobre um conto curto

ENSAIO INÉDITO ANALISA FÁBULA EM QUE KAFKA CONSTRÓI O MONÓLOGO DE UM RATO DIANTE DE UMA ESCOLHA "RACIONAL"

MODESTO CARONE

Entre os contos de Kafka, consta pelo menos um que é pouco conhecido. Referimo-nos a "Pequena Fábula":"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro". -"Você só precisa mudar de direção", disse o gato, e devorou-o.

Trata-se de uma fábula porque nesse relato intervêm animais falantes. Mas não existe aqui -como é o caso da tradição das fábulas- uma moral explícita da história no final. A ausência dessa moral da história levou muitos intérpretes a não aceitarem que o caso é de fábula, embora o título seja esse, e sim de uma parábola, que apresenta a história como se ela estivesse ao lado de outra, com a qual estabelece relações de analogia.

Basicamente o texto é um monólogo do rato. O monólogo -sempre expressão do isolamento- começa com uma interjeição (Ah!). Essa interjeição no entanto é logo absorvida no relato de algo experimentado antes (o mundo era vasto, mais amplo que agora). A repetição da primeira pessoa (eu) e as expressões "medo" e "feliz", que exprimem afetos e se contradizem mutuamente, provocam o leitor a algum tipo de participação. As experiências do rato são apresentadas como sendo ativas só uma vez: "Eu via".

As demais são vividas passivamente: o mundo torna-se mais estreito, as paredes convergem uma para a outra, lá no canto fica a ratoeira. Tudo se passa como se o rato se visse num processo que corre com autonomia, naturalmente, sem intervenção do personagem narrador. O resto deve, assim, submeter-se à noção de que a sua situação é sem saída. O rato sempre foi movido -impulsionado- pelo medo; é isso que o faz correr para a frente, para o que é amplo e vasto, e perder-se no que é necessariamente estreito.

O fecho lacônico da peça tem uma precisão lógica que não é necessariamente cínica, e aparece sob a forma de um conselho desinteressado. O verbo "devorou" ("frass", do verbo "comer" destinado aos animais) assinala um acontecimento esperado num lugar inesperado e assume sua força no momento em que alcança uma nova dimensão que parecia faltar ao texto.

O que Kafka diz nessa micronarrativa? Diz, entre outras coisas, que a última saída da razão leva à ruína.Ou seja: que todos os esforços para superar o medo e a derrocada significam apenas gradações da falta de liberdade objetiva do mundo. Para o rato não existe escolha, ou melhor: essa escolha só pode se dar entre as alternativas de submeter-se à violência da ratoeira ou à violência do gato.

Nas "Conversações com Kafka", de Gustav Janouch, o poeta de Praga afirma, a certa altura, o seguinte: "Existe muita esperança, mas não para nós".

Era esse o teor, a base, da sua dialética negativa -e não há como discordar da coerência do humor negro contido nesta fábula.

Este texto foi extraído de "Lição de Kafka" (Companhia das Letras).

Silêncio, paciência e tempo


No anoitecer de sua vida, o coronel-mor do Maranhão, José Sarney, evoca Sêneca (4 a.C. - 65 d. C.), senador romano, filósofo e tutor de Nero, alegando ser vítima de uma conspiração da história. Ante ao que chama de "injustiça", crê na futura absolvição dessa mesma história que ora parece condenar-lhe. "Ante as injustiças, o silêncio, a paciência e o tempo", diz o filósofo citado por Sarney: os elementos que lhe restituirão a dignidade que lhe fora roubada por suas próprias escolhas. Ao empresatar as palavras de um famoso senador da Roma imperial, Sarney demonstra até onde pode ir a paranóia do poder. O condão deste de transportar o sujeito (humano, demasiado humano) para um outro lugar. Acredito que o político brasileiro conheça algo da biografia de Sêneca. Alheio a nossa tradição judaico cristã e seus engodos, Sêneca acreditava no destino. Ao assumir o cargo de tutor de Nero, sabia o preço que, cedo ou tarde, pagaria. Já idoso, Sêneca recebe os centuriões que a seu palácio dirigiram-se a mando do imperador para dar cabo de sua vida. Dirige-se, então, aos seus aposentos, despe-se, deita-se em sua banheira de águas mornas e corta os pulsos. Aos centuriões resta reportar o fato ao imperador . O tempo e o silêncio consagraram Sêneca como filósofo. Em vida, foi senador e tutor de Nero.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Uma personalidade


Ainda que se reconheça na imprensa uma inevitável tendência à construção de mitos e que a dita verdade nada mais é do que uma narrativa como qualquer outra, tenho para mim que o Obama é uma personalidade como há muito não se via na política. Não é possível resumir sua presença em nenhum adjetivo específico, muito menos à questão racial, algo que o próprio, estratégicamente, tratou de rechaçar desde o início. Lula, que afirmou recentemente que Sarney não é uma pessoa comum, classificou Obama como tal, como uma pessoa normal. Inteligentíssimo, ainda que de parcos recursos vernaculares, o nosso presidente, que tem contato com inúmeros chefes de estado e de governo, possivelmente expressou um sentimento sincero e legítimo em relação ao presidente americano. Obama demonstra altivez sem arrogância, é popular sem ser populista, tem carisma sem caricatura, sua retórica não padece de arroubos. Ainda, não parece querer demonstrar com seu estilo pessoal de vida ou com sua postura diante das câmeras ser o porta voz de uma época ou ser o detendor da responsabilidade simbólica de propagandear um estilo de vida. O "american way of life" não tem espelho em sua sobriedade. Claro que é um homem de seu tempo e o fato de usar iPod e Blackberry rendeu alguma mídia. Sua postura, no entanto, remete-nos a um inexorável "sim, e daí?". Em algumas tomadas vejo-o deveras pachorrento e me recordo do perfil do gaúcho, algo caricato, descrito em verso e prosa por Borges. Aquele que usa o tempo e espera pacientemente a hora de atacar.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Lembrando Sade

O recente "passamento" de um artista mundialmente famoso, as circunstâncias do fato e da vida do sujeito lembraram-me do Marquês de Sade. No clássico "120 Dias de Sodoma", afirma um dos celerados: "um excesso conduz ao outro".

terça-feira, 23 de junho de 2009

Porque não

Não compreendo outro tipo de confiança
Que não a cega.
Não me espanto com outro tipo de cachorro
Que não o louco.
Não anseio outro tipo de amada
Que não amante.
Não admito outro tipo de criança
Que não a feliz.
Não me deslumbra outra cidade
Que não a maravilhosa.
Não sofro de outro tipo de dor
Que não a lancinante.
Não cedo a outro tipo de força
Que não a maior.
Não me escondo de outro tipo de chuva
Que não a torrencial.
Não concebo outro tipo de droga
Que não a pesada.
Não temo outro tipo de arma
Que não a de fogo.
Não viajo em outro tipo de velocidade
Que não a alta.
Não me apavora outro tipo de caso
Que não o fortuito.
Não desejo outro tipo de ato
Que não o amoroso.

A Prova


- Vou fazer a prova!

- Melhor não.

- Por que?

- Você não está preparado...

- Vou tentar.

- Mas se fracassar?

- Fracassarei por meus próprios méritos!

domingo, 21 de junho de 2009

A palavra de um "colega"


Muito se discute sobre o status do blog, se "literário" ou não. José Saramago lança luzes sobre a questão. "A prática do blog levou muitas pessoas que antes pouco ou nada escreviam a escrever. Pena que muitas delas pensem que não vale a pena se preocupar com a qualidade do que se escreve (...) "Pessoalmente cuido tanto do texto de um blog como de uma página de romance", disse Saramago em entrevista publicada hoje pelo jornal argentino "Clarín". Quanto a seu blog, o escritor disse que não destina ao espaço "nenhuma ideia em particular", para depois expressar que "os sismógrafos não escolhem os terremotos, reagem aos que vão ocorrendo, e o blog é isso, um sismógrafo". "Aqueles que me leem sabem que podem encontrar-se a cada dia diante de algo totalmente inesperado", reforçou Saramago. O autor de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" também sustentou que não teve de lidar com a situação de criar textos que tivesse medo de publicar, e avaliou que "se o blog é um espaço para a reflexão, não deve surpreender que ilumine aquele que o escreve".

Concordo.

Desejo, logo existo



- E eu?... te disse... fico falando com você... dia inteiro na rua... ando... e falo mentalmente com você ao meu lado... discuto a relação sozinho... separei mas continuo discutindo a relação, monólogo conjugal... outro dia virei para um chofer de táxi português e disse: 'O que te estraga é esse teu lado Country Club'... para um chofer de táxi... você pensa que é só você que sofre?

- Mas você é homem!... Você não sabe o que é uma mulher solta no mundo... todo mundo mexe, não posso tomar um mísero chope sozinha...

- Mas também você não vai casar só pra poder tomar chope...

- Não... não é isso... é que é tão triste...

[Eu vou ficar maluco por causa dela... tenho certeza que meu fim será triste... vou acabar na maior merda...].

O texto é do Arnaldo Jabor, roteiro de "Eu seu que vou te amar" que li certa vez, todo ele, em voz alta, com uma pessoa que amo, numa experiência muito forte.
Atualizo o post para destacar a semelhança deste filme com "O Último Tango em Paris", do Bertolucci, que acabei de rever depois de muito tempo. À época incapaz de perceber o conteúdo metafórico do ambiente caótico e angustiante das vidas das personagens maravilhosamente representadas por Marlon Brando e Maria Schneider. A semelhança, ainda, vai além do erotismo transbordante. Trata-se da incomunicabilidade dos amantes através das palavras, do insimbolisável que caracteriza o "real" do sexo.
Os personagens de ambos os filmes encontram-se à beira do abismo, marcados por sentimentos ambivalentes, entre o sublime e o sórdido. Em ambos os filmes se vislumbra, ao final, uma espécie de absolvição. Longe de haver um happy end, os personagens de algum modo se redimem de suas culpas, do peso da existência, seja com a morte real, seja por uma "petit mort", um orgasmo. Cumprem-se as respectivas sinas, restando aos personagens um lugar por eles ardentemente desejado.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Detalhe pessoal


"Tenho dito muitas vezes: perto das mulheres a vida é um serviço militar, um serviço que deveria ser obrigatório para a juventude, pois completa a educação e forma o caráter; com ela triunfamos sobre as nossas debilidades e, o que é mais importante, aprendemos a cuidar do detalhe pessoal, a arrumar a cama, a preparar o chá".

Não me recordo de quando ouvi falar de Borges pela primeira vez. Em Buenos Aires comprei um livro dele. Uma publicação de crítica literária. Fiz o que pude com meu espanhol inexistente. Mais recentemente, por influência de um amigo, o li com o merecido respeito e com uma certa reverência até. Os tomos se revezam na cabeceira desde então. Digo isso porque Borges me levou, ele próprio, a outro autor apaixonante. Rico nas semelhanças com Borges e rico pelas diferenças também. Trata-se de seu amigo Adolfo Bioy Casares, autor do trecho acima, parte do conto "Todas as Mulheres são Iguais", do livro "Histórias de Amor".

À semelhança de Borges, o apego ao sutil, a escrita elegante. Diferentemente de Borges, não nos maravilha com o fantástico, mas com o prosaico. Ou, talvez, teriam ambos o dom de nos maravilhar com o fantástico que há no prosaico por sua extrema elegância no trato com as palavras, de resto, com os sentimentos.

Datas comemorativas não costumam me sensibilizar eis que nelas vejo antes de qualquer coisa um indelével apelo comercial. Mas neste dia dos namorados brasileiro (no resto do mundo é 14 de fevereiro - dia de S. Valentino), fica também o texto como homenagem à minha namorada, não por acaso também esposa, que vez por outra lê aqui o que os antigos chamavam "mal traçadas linhas".

sábado, 30 de maio de 2009

Uma cena


Perguntaram-me em certa ocasião qual a cena de filme mais marcante para mim. Impossível responder. Ou responderia: "devem ser umas 37". Mas era mesa de bar e eu tinha que dar uma resposta. A prioridade é a conversa não a verdade. Bueno, lembrei-me de uma cena de "Saraband", do Bergman. Erland Josephson, no papel do protagonista (na foto, com Liv Ullmann), idoso (idoso não, velho) escuta sozinho em sua biblioteca a 5a de Beethoven em volume altíssimo, de frente a enormes caixas de som, tal qual um adolescente triste. A jovem neta irrompe no quarto, interrompendo o êxtase deveras mórbido do avô e outra cena se desenrola. Ah! e há aquela da Penélope Cruz pintando em "Vicky..."... e....

domingo, 24 de maio de 2009

"Ninguém é perfeito"


Essa é a última fala do filme "Quanto mais quente melhor" do genial Billy Wilder (1959). Hollywood nunca produziu nada melhor do que esse cinema da década de 50. Ver Scarlett Johansson "nas mãos" de Woody Allen é rever, em certa medida, Wilder dirigindo Marilyn Monroe. Inegáveis também as influências de Wilder na obra de Woody Allen (além, é claro, de Bergman e dos irmãos Marx). Para quem acredita em temas "pós-modernos", nada mais conveniente que "Quando mais quente melhor". Tony Curtis e Jack Lemmon vestidos de mulher em atuações memoráveis. Impossível deixar de fazer uma reflexão sobre os papéis sexuais e a eleição do objeto de amor. A sexualidade humana como terreno minado e insondável. E há quem diga que o tal "crossdresser", um travesti heterossexual, é fenômeno atual, pós-moderno, etc. Bem, atual, certamente, é Billy Wilder.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Valores a conservar

Em visita ao STF no último dia 14, o juiz da Suprema Corte norte-americana Antonin Scalia externou algumas de suas posições acerca da aplicação da lei e da postura do magistrado. Scalia foi nomeado por Reagan em 1986 e é famoso por sua postura ultra-conservadora (a Suprema Corte é tradicionalmente composta por juizes progressistas e conservadores de forma mais ou menos proporcional e o cargo é vitalício; políticos-juizes, como Nelson Jobim, ou juizes-políticos, como Gilmar Mendes, é fenômeno impensável nos EUA).
Scalia assume sem receios suas posições, é avesso a palanques e raramente pronuncia-se na mídia. Vê sua função como um verdadeiro sacerdócio. “Os juízes não têm idéia de qual é a vontade do povo. Nós trabalhamos em palácios de mármore”, afirma Scalia, furtando-se a qualquer posicionamento de índole moral, o qual poderia contaminar a aplicação da lei. “A única maneira de decidir uma questão moral é pelo processo democrático. Um juiz não sabe mais do que um cidadão comum”, destaca com inegável humildade.
Sem entrar no mérito das posições de Scalia, penso que o Brasil necessita de mais juizes com essa postura. Não sei se fruto de anos de ditadura ou decorrência de nossa formação história, o judiciário brasileiro está em parte contaminado por uma certa aversão a aplicação da lei segundo sua literalidade, valendo-se de teorias rocambólicas para o que é, na prática, uma negativa de vigência da lei (dito de outra forma, é o fenômeno das leis que "não pegam").
“O significado da Constituição pode mudar ao longo do tempo para obedecer a evolução da decência”, afirmou Scalia. “O que eu questiono é a sanidade de uma decisão cheia de valores ser feita por um juiz não-eleito”, destaca. Conservadorismo no Brasil é palavrão. Num país em que há o que se preservar, em que há valores fundantes da sociedade estabelecidos tal como nos EUA, a idéia de conservadorismo ganha outra conotação. A constituição dos EUA vai para os 300 anos com duas dezenas de emendas. A nossa, com 20 anos, já tem mais de 50 emendas. Para Scalia, o conteúdo valorativo é inerente à lei, bastando ao juiz aplicá-la. Talvez nos faltem valores, mesmo. Leis, certamente não.

domingo, 10 de maio de 2009

Mulher, mãe


Observando de fora, mas não tão de fora assim, posto que na qualidade de um pai razoavelmente diligente, vejo a maternidade como uma dádiva e um tormento na vida da mulher. Até o momento (não sei por quanto tempo...) exclusivas encarregadas do fardo da maternidade, as mulheres vivem às voltas com isso. Optando ou não pela maternidade, trata-se de uma decisão que marcará suas vidas. A par de discussões típicas do movimento feminista, creio firmemente que a maternidade somente é "natural" no que tem de biológico. Como não somos somente "bio", mas também "lógicos" e, ainda, dotados de um inconsciente, a coisa complica bastante. Livrai-nos, pois, os deuses, de todo o romantismo em torno da maternidade e que seja ela encarada social e psicologicamente como parte de um projeto de vida, fruto de um intenso e bem constituído desejo.

Minha irmã trata deste tema com a devida profundidade em seu livro. Detalhes aqui: http://www.maternidadeeinfertilidade.blogspot.com/

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O livro errante

Esqueci um livro no avião. Era uma escala na capital federal. Era um livro de um autor e cineasta que amo. A raiva rapidamente se transformou em conformidade, que se transformou em curiosidade, que me transformou numa espécie de espectro a acompanhar o livro, em cuja contracapa se lia meu nome carimbado (carimbo todos os meus livros: ex-libris). Imagino agora o livro nas mãos do primo de uma comissária de bordo, do filho de uma zeladora, de um técnico em computação que nunca pensou que alguém poderia escrever aquilo, de um assessor parlamentar que nunca ouvira falar do autor e se espantava por isso, do administrador que já possuia o exemplar e iria doar este a um amigo que ama. Fico triste em pensar que o livro possa estar esquecido em alguma prateleira de "achados e perdidos" ou o que o valha. Na gaveta da mesa de algum burocrata. Ou no lixo. É uma dúvida sobre um pormenor da vida, enfim. Nem pelo prazer de pensar o livro em boas mãos vou deixar minha humilde biblioteca no prejuízo. Vou procurar a mesma edição numa livraria.